Les triplettes de Belleville

Há muito tempo que queria ver este filme, não só pelas críticas que li e ouvi, mas por se trata de um filme de Sylvain Chomet. Ontem, tive essa oportunidade no Festival de Cinema Francês.

O início é simplesmente hilariante com as Triplettes a surgirem num espectáculo de variedades no mínimo exótico, que com ironia  e exagero mostram ao espectador o que é a América. Quando a emissão é interrompida, a acção muda drasticamente para um ambiente triste, de um avó e do seu neto. Esta avó é uma personagem e tanto, que nos lembra as nossas próprias avós. Literalmente. A avó Souza é portuguesa. Reparem nos detalhes do galo de Barcelos presentes na sala.

Esta avó é uma personagem deliciosa, que tudo faz para alegrar o seu neto. Quando finalmente descobre o que o rapaz anseia e gosta, encontra também a sua vocação, a de ciclista, e passados uns anos, sempre no encalço dele, apoia-o e ajuda-o a ultrapassar os obstáculos. Mas é neste ponto que a trama se intensifica e seu querido neto é raptado e levado por autênticos armários, outro dos pormenores excelentes que retratam exageradamente este tipo de guarda-costas, ou será guarda-fatos?

A avó Souza ao perceber que algo se passa, consegue com ajuda de Bruno, o cão da família, com um ódio de estimação por comboios, segui-lo até ao outro lado do mundo, até Belleville. Esta cidade, é uma crítica extraordinária de Nova Iorque, onde todos, praticamente sem excepção, são grandes e gordos, à boa maneira americana.

No meio das dificuldades, o seu talento para a música, leva a avó Souza a encontrar as triplettes de Belleville, que anos mais tarde, se encontram também elas no limiar da pobreza. Este é um tema recorrente de Chomet, a inevitável pobreza e desgraça depois da fama. Estas três irmãs vivem no subúrbio decadente, com os seus instrumentos musicais improvisados e vão ser elas a grande ajuda que avó Souza e Bruno tanto precisavam. As rãs são literalmente o prato do dia, que evocam momentos para alguns um pouco agoniantes e para outros extraordinariamente cómicos.

É num dos seus fantásticos espectáculos que acabam por descobrir pistas sobre o paradeiro de Champion, e graças à astúcia e esperteza da avó Souza, livrar Champion da prisão imposta pelos mafiosos do vinho. Mais um vez, é totalmente brilhante a linha de raciocínio que leva a este desfecho feliz. As cenas de perseguição dignas de qualquer filme de gangsters são também elas hilariantes, onde claro, parece que o “mau da fita” nunca mais morre.

Inteligente, diferente, com muito para pensar, enfim, simplesmente genial. Mas ao contrário do filme em que as últimas palavras são C’est fini? Oui, c’est fini, esperemos que Sylvain Chomet nunca “c’est fini” de nos presentear com belas histórias como esta.

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